A história de Thiago Reinaldo
Construído pela
fé.
Antes da faixa-preta, dos campeonatos e da academia na Virgínia, havia um menino em Manaus usando uma calça de kimono costurada pela mãe.

Com minha mãe · Seletiva Abu Dhabi World Pro · Manaus, 2013

01 · Antes da primeira aula
Uma fita VHS mudou o rumo de sua vida.
Thiago nasceu e cresceu no bairro de Aparecida, em Manaus, Amazonas. Brincava nas ruas com os primos e começou a nadar aos sete anos. A competição já fazia parte de sua natureza, mesmo antes de o Jiu Jitsu dar um propósito a essa vontade.
Em 1994, antes de os melhores momentos das lutas circularem instantaneamente pelo mundo, uma locadora em Manaus foi o cenário de um momento que mudaria sua vida. O dono sabia que Thiago gostava de artes marciais e o chamou para recomendar uma fita VHS recém-chegada do UFC 1.
Naquela noite, Thiago viu Royce Gracie usar o Jiu Jitsu brasileiro para vencer adversários maiores. A curiosidade se transformou em vontade de entender como técnica, controle e estratégia poderiam mudar o resultado de uma luta.
02 · Um começo feito à mão
O primeiro tatame veio antes da primeira academia.
Antes de poder frequentar uma aula formal, Thiago e seus amigos criaram seu próprio espaço de treino com uma lona e serragem no quintal de um vizinho. Também lutavam no piso liso em frente a uma padaria fechada, tentando reproduzir o que tinham visto e aprendendo com muita determinação.
Em 1997, um amigo da natação o convidou para uma aula de Jiu Jitsu. Thiago não tinha condições de comprar um kimono completo. Um primo lhe deu o paletó, e sua mãe costurou a calça. Aos quatorze anos, ele finalmente pisou em um tatame de verdade e começou a treinar na linhagem do Sensei Henrique Machado.
Não existe milagre sem sacrifício.
Um lema levado da linhagem do Sensei Henrique Machado, em Manaus, para o Jiu Jitsu e para a vida.03 · O competidor
A derrota que o fez voltar na segunda-feira.

Thiago começou a treinar em 1997 e disputou seu primeiro Campeonato Amazonense em 1998. Perdeu depois de passar quatro minutos sob a pressão do sprawl de um adversário. O resultado não o afastou. Fez com que voltasse à aula na segunda-feira, determinado a entender cada erro.
Na comunidade do Jiu Jitsu em que Thiago cresceu, o Amazonas era conhecido como um celeiro de campeões. Ele se lembra de ouvir que o Amazonense era um dos campeonatos mais disputados do Brasil. Vencer ali tinha um significado especial.
Em 1999, voltou ao Amazonense e foi campeão na faixa branca. Depois dessa competição, recebeu a faixa verde. A derrota do ano anterior havia se tornado um motivo para buscar conhecimento, melhorar e voltar mais preparado.
Em 2001, já na faixa azul, Thiago venceu sua categoria e o absoluto em uma competição local. Os prêmios incluíam um kimono e uma passagem aérea para disputar os Brasileiros (IBJJF/CBJJ), no Rio de Janeiro. Para ele, significavam muito mais do que dois prêmios. Um kimono era caro, e ele não tinha condições de comprar outro. Viajar para outro estado para disputar o Brasileiro parecia ainda mais distante de sua realidade.
Thiago se lembra de uma época em que o Jiu Jitsu tinha pouca visibilidade e nem sempre era bem-visto pelas pessoas ao seu redor. Sua mãe ainda não apoiava sua dedicação ao esporte, uma preocupação que ele entende hoje. Na escola, depois de contar à professora de português que praticava Jiu Jitsu, ela o menosprezou diante dos colegas, dizendo que um dia o veria carregando caixas no Porto de Manaus. Ela se referia a um trabalho braçal, pesado e socialmente desvalorizado, insinuando que sua dedicação ao esporte não o levaria a lugar algum. A lembrança ficou com ele.
Na noite daquela vitória, Thiago chegou em casa e viu sua mãe. Tentou contar o que havia acontecido, mas a emoção interrompeu suas palavras. Entre lágrimas, conseguiu dizer que tinha vencido. Eles se abraçaram e choraram juntos.
Aquela noite marcou uma mudança. Sua mãe começou a apoiá-lo, e a oportunidade de disputar os Brasileiros deixou de ser um sonho distante. No Rio de Janeiro, Thiago se tornou campeão brasileiro na categoria adulto, peso pesado, faixa azul.

Os anos na faixa-preta · Amazonas
Vencer onde tudo começou.
Competir no Amazonense foi uma constante na trajetória de Thiago. Depois de sua primeira participação em 1998 e do título na faixa branca em 1999, disputou todas as edições até 2015, conquistando diversos títulos enquanto avançava pelas faixas coloridas. Esses campeonatos fizeram parte de sua formação ano após ano, muito antes de ele se tornar faixa-preta.
Somente na faixa-preta, conquistou sete títulos consecutivos na categoria de peso, de 2009 a 2015, além de seis títulos no absoluto. Sua última participação no Amazonense foi em 2015, encerrando um capítulo de presença contínua no campeonato que ajudou a formá-lo.
A competição se tornou um laboratório de equilíbrio, preparação e aprendizado sincero. Essas lições continuam presentes na forma como ele ensina hoje.

Sensei Henrique Machado
Mais que
um professor.
Depois de vencer os Brasileiros (IBJJF/CBJJ) na faixa azul, Thiago começou a se afastar da rotina de treinos que tanto amava. O Sensei Henrique Machado percebeu a mudança e não deixou aquelas ausências passarem despercebidas.
Em algumas manhãs, o Sensei ia acordá-lo para treinar. Esperava enquanto Thiago escovava os dentes e se preparava para sair. Quando Thiago dizia que ainda precisava tomar café da manhã, o Sensei já tinha uma resposta: havia um misto esperando por ele.
Na época, Thiago sabia o quanto seu professor acreditava na disciplina. Anos depois, passou a entender o cuidado por trás daquela insistência. Para ele, era mais do que um professor trazendo um aluno de volta aos treinos. Era a presença de um pai em um momento em que precisava de orientação.
Thiago acredita que Deus colocou o Sensei em seu caminho para ajudá-lo a reencontrar o rumo. Não sabe como sua vida teria sido sem aquela intervenção, mas continua profundamente grato por ela, pelas conversas e pelos anos de convivência. Com o Sensei Henrique, aprendeu muito mais do que Jiu Jitsu.
04 · De Manaus aos Estados Unidos
Uma oportunidade, um retorno difícil e um segundo chamado.
Thiago recebeu a faixa-preta do Sensei Henrique Machado em 2008. Quatro anos depois, após guardar o dinheiro das premiações de competições para uma nova tentativa de visto, viajou aos Estados Unidos para competir em Las Vegas e na Califórnia.
Nessas viagens, conheceu o Professor Alberto Crane na Gracie Barra Burbank. Alberto se tornou uma influência importante e abriu seus olhos para a possibilidade de viver ensinando Jiu Jitsu nos Estados Unidos. Thiago inicialmente recusou uma oportunidade de ficar, voltou a Manaus e enfrentou um período de incerteza financeira que o fez considerar abandonar a arte.
Então Alberto ligou novamente. Uma oportunidade de ensinar na Gracie Barra Santa Barbara trouxe Thiago aos Estados Unidos em 2015. O que antes parecia distante se tornou o próximo capítulo de sua vida.




05 · Construída por famílias
A Gracie Barra Stafford começou antes da primeira aula.
Em 2018, Jamie Leland e sua família procuravam o professor certo para ajudar a abrir uma escola Gracie Barra na Virgínia. Sua família conheceu a de Thiago, e uma visão compartilhada começou a ganhar forma.
Thiago participou da academia desde a obra. Carpetes e pisos foram removidos, paredes internas foram abertas, o espaço foi pintado e os tatames foram instalados. Sua esposa e seus filhos trabalharam ao lado de Jamie, do marido e dos filhos dela. A Gracie Barra Stafford realizou suas primeiras aulas em 15 de dezembro de 2018, construída por duas famílias que acreditavam no que a academia poderia se tornar.
Jamie, que era faixa azul na época, tornou-se a Professora Jamie e a primeira mulher a receber a faixa-preta de Thiago. Hoje, os dois lideram juntos como parceiros, ajudando a academia a crescer e a acolher alunos de todas as idades.
Professor Thiago e Professora Jamie · Pan-Americano 2024
06 · Mais que técnica
Ensinar com amor. Liderar com propósito.
Thiago vê seus alunos como uma extensão de sua família. Ensina técnica com precisão, mas também disciplina, perseverança, resiliência, honestidade e confiança para seguir em frente nos momentos difíceis.
Sua esposa treina, ensina e é faixa roxa. Os três filhos também treinam, e os dois mais velhos atuam como assistentes juniores. O Jiu Jitsu não é apenas a profissão de Thiago. Faz parte da vida diária da família e da maneira como servem à comunidade.
“Acredite. O objetivo é ajudar cada aluno a descobrir que o progresso é possível quando esforço, disciplina e propósito caminham juntos.
Marcos da trajetória
Uma vida medida em capítulos, não em medalhas.
O próximo capítulo ainda está sendo escrito